Peça discute patologias mentais e desconstrói clichês

Por Suria Barbosa

“Anatomia Frozen” é uma peça em que serial killer quase é perdoado e uma psiquiatra especialista expõe seus próprios desejos sombrios. Dois atores representam três personagens, cada um tão intenso que poderia ter sua própria peça. Joca Andreazza interpreta um assassino psicopata pedófilo, Paulo Marcello fica incumbido da mãe de uma das muitas vítimas do assassino e da psiquiatra expert no assunto.

A peça começa nebulosa, talvez para forçar o espectador a ter uma atitude de reflexão, e fica a cada segundo mais fascinante. Nenhuma interpretação é imposta, tudo fica a cargo do espectador. “Deixamos aberto para o público decidir, assim as pessoas são obrigadas a se questionarem e acabam confrontando os desejos de vingança e de perdão. Nenhum personagem é simplesmente vítima, todos estão em conflito interior” declara Marcello.


Foto por Tati Cardoso
Dois atores dissecam três personalidades 

O tema, quando aprofundado, ajuda a entender diversos casos de assassinato, como o da família Pesseghini, que escandalizou o Brasil. O crime, provavelmente, foi obra do único filho (e principal suspeito), de 13 anos. Se o menino for mesmo o culpado, tinha uma disposição a apresentar distúrbios mentais graves, assim como o personagem que Andreazza interpreta. Para construir seu personagem, Joca Andreazza se apoderou de certos trejeitos de que os psicopatas possuem. “Impressionei-me com um que piscava muito, sem parar. Chegava a ser agoniante”.

No espetáculo, a proposta é uma dissecação dos personagens (daí o nome “Anatomia Frozen”). Isso faz com que a abordagem dos atores seja diferente para questões recorrentes na sociedade. “Quando vemos um serial killer nos filmes, ele é uma pessoa fina, contida, elegante. Como aqui fazemos um processo de desconstrução, procurei mostrar o interior do assassino. O impacto disso é muito mais interessante do que mostrar de uma maneira glamorosa as possibilidades intelectuais do assassino” conta Andreazza.

Apesar de ser uma noite de quinta-feira, merecia público de sábado.

Teatro Cit Ecum

Rua da Consolação, 1623 – Consolação – São Paulo

Quartas e quintas – 21H

R$40,00

Até 5 de setembro

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4 Respostas para “Peça discute patologias mentais e desconstrói clichês

  1. Ótima crítica.
    Eu, que até então não havia lido ou ouvido falar nesta peça, rapidamente me interessei em assistí-la.
    Em tempos em que as “doenças da alma” como pisicopatia e afins geram notícias diária e viram temas de grande repercussão pública, é bastante pertinente a produção de peças como essas. Muito interessante! E minha quinta-feira foi salva por um post, hoje mesmo estarei lá.

    Bianca

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