Transe

Por Thiago Mostazo

Caetano (1)

    Em 1971, Caetano Veloso, então exilado em Londres pelo governo ditatorial, recebeu dos militares permissão para rápida volta ao Brasil para que pudesse participar das festividades que comemoravam os 40 anos de casamento de seus pais. Na ocasião, o governo brasileiro estava em plenas vias de realização do projeto de construção da Transamazônica. Pediram ao cantor que, portanto, fizesse uma canção exaltando a obra. Caetano recusou a proposta e ao voltar para Londres começou a gravar o disco Transa. No ano passado, o álbum completou 40 anos de seu lançamento e foi reeditado e remasterizado no folclórico estúdio de Abbey Road em Londres.

Lançado no Brasil apenas em 1972, o disco era o segundo de Caetano em terras londrinas e já apresenta um amadurecimento musical e uma maior desenvoltura do artista em relação a “Caetano Veloso”, do ano anterior. Nele, percebe-se que a melancolia adotada por ele quando teve de abandonar sua terra natal vai sendo superada, em grande parte pelo impacto de suas novas experiências musicais.

caetano
Composto de maneira bilíngue, parece demonstrar que a partir do domínio da língua e de sua consequente utilização para criação musical, Caetano conseguiu de certa forma incorporar mais facilmente o cotidiano estrangeiro, utilizando-se deste artifício.

Em época de efervescência cultural, Londres reunia no início dos anos 70 um vasto e diversificado cenário musical. Foi por lá que Caetano ouviu pela primeira vez, passeando por Portobello Road, o reggae que serviu como inspiração para compor Nine Out of Ten, segunda faixa do disco e considerada pelo próprio Caetano como sua melhor música escrita na língua inglesa. A introdução do ritmo jamaicano representou, na época, uma inovação em um tempo em que nem Bob Marley havia atingido o alcance de repercussão e influência mundial ao qual chegou.
Não deixa de ser evidente, no entanto, seu sentimento de saudades do Brasil, e em vários elementos Caetano o apresenta. Como na expressiva música Triste Bahia, em que inclusive empresta e emprega versos de Gregório de Matos (1633-1696) poeta brasileiro que também sofreu com a situação do exílio. E na utilização de instrumentos e ritmos tipicamente tupiniquins como o berimbau e o samba.
A entrada do disco com You Dont Know Me parece um grande desabafo de sentimentos do cantor, que aos gritos afirma “que ninguém o conhece”, parecendo também buscar decifrar a si mesmo, e termina exaltando o povo brasileiro, como se num agradecimento por ter nascido dentro dessa cultura tão diversa e rica.
It’s a Long Way possui uma levada referenciada no som dos Beatles, e transita entre diversos ritmos e estágios de voz que apontam para as mais diversas sensações durante a música. Em Mora na Filosofia, retoma o samba clássico de Monsueto Menezes e Arnaldo Passos que caminha entre a melancolia e o êxtase, atingido ao final da canção. A experimental Neolithic Man e a rebelde Nostalgia (That’s What Rock And Roll Is All About), fecham o disco com maestria.
A banda que acompanha Caetano no disco, formada por Jards Macalé, Tutty Moreno, Áureo de Souza e Moacyr Albuquerque, é essencial para a estética experimental e livre de amarras que o disco busca construir para expressar tanto a dificuldade e depressão de estar longe da terra nativa quanto a alegria de viver de Caetano.

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