A produção literária na era da interatividade

Por Isabelle Rumin

Os livros coletivos têm abalado o mercado literário. As obras com múltiplos autores têm ganhado relevância com a da força da internet, que abre espaço para esse tipo de processo de escrita mais interativo. Hoje há sites e redes sociais especializados em reunir gente disposta a escrever livros. Redes como a startup brasileira Widbook, fundada em 2012 e conhecida como “o Youtube dos livros”.

A rede funciona da seguinte maneira: o usuário cria um perfil literário, e pode publicar textos próprios e fazer observações em outros projetos. O autor pode então concordar com as modificações ou não. Se aceitar, o nome do segundo usuário já entra como coautor, a obra final pode ser criação de inúmeras pessoas. Em agosto, a Widbook tinha mais de 30 mil membros, em cem países. Em pouco mais de um ano, a rede acumulou mais de 1.100 livros virtuais publicados e outros seis mil em confecção.

O escritor gaúcho Menalton Braff lançou no início de outubro um projeto para reunir jovens de todo o país na construção de um romance coletivo. Em “Uma história, várias mãos”, jovens e adolescentes de até 18 anos poderão escrever um romance a partir do primeiro capítulo já escrito por Manalton em seu blog. Uma comissão julgará os textos enviados e o escolhido será incorporado ao livro. A proposta é criar 20 capítulos que serão publicados pela Editora Descaminhos.

Moacir Scliar com coautores do “Livro de Todos” na Bienal de 2008

Porém, será que essa forma de criação não interfere na qualidade das obras produzidas? A literatura do futuro será uma massa de produção sem autoria? Menalton diz não ter a intenção de garantir uma literatura de primeira, mas incentivar os jovens a escrever, e de forma criativa. O vencedor do prêmio Jabuti no ano 2000 pelo livro “À sombra do cipestre” diz que “seria muita pretensão” almejar uma alta qualidade literária no romance, “a variedade de autores quebra a unidade estilística”. Mas ele acredita que talentos podem ser revelados.

Em 2008, um projeto para a Bienal do livro em São Paulo também tinha como objetivo aproximar os jovens da literatura. “O Livro de Todos” contou com a colaboração de 173 pessoas e seus 18 capítulos contaram com o pontapé inicial de Moacyr Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras falecido em 2011, e também vencedor de várias edições do Prêmio Jabuti. “O mistério do livro roubado” é o resultado das possibilidades que a internet tem de ser uma ferramenta para essa aproximação.

Segundo os organizadores, a grande adesão ao projeto foi a prova de que este é um caminho a ser seguido e ainda com um grande potencial de crescimento. “O escritor precisa do leitor e o leitor quer ficar próximo do escritor”, diz um dos fundadores da Widbook, Joseph Bregeiro.

A discussão sobre essa forma de criação literária ainda está apenas no início. A internet cria novos panoramas para os autores e muda sua relação com as editoras e com o leitor. Resta saber se esse formato não inibirá os autores e a criação de discursos que destoem do reproduzido pela sociedade.

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