O Nobel de uma boa mulher

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Peter Muhly/AFP

Por Priscila Bellini e Isabelle Rumin

O Nobel de Literatura parece sempre chamar a atenção por uma concorrência acirrada entre os favoritos. Entre os nomes que se destacaram, estavam Haruki Murakami, de 1Q84, e Philip Roth, famoso por livros como Nêmesis. Mesmo com a concorrência notável, a escritora canadense Alice Munro levou o prêmio, aos 82 anos de idade e às vésperas de, talvez, se aposentar como escritora.

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Peter Muhly/AFP

Autora de livros como O Amor de uma Boa Mulher e Felicidade Demais, Munro tem um estilo “extremamente real”. O ordinário e comum encontra, nas palavras da autora, um aspecto notável: afinal, o que se esconde no que julgamos trivial? Sem grandes reflexões existencialistas, a escritora revela detalhes das personagens aos poucos, durante os diálogos que, a priori, parecem mais simples. Munro foi a primeira escritora de contos a ganhar o Nobel e, segundo o próprio comitê de premiação, ela é a “mestre da narrativa breve contemporânea”. A escritora canadense chegou a ser comparada a um dos grandes nomes da literatura russa, Anton Chekhov.

A maioria dos livros de Alice Munro ainda não tem tradução no Brasil. Temos quatro títulos publicados, todos pela Companhia das LetrasÓdio Amizade Namoro Amor CasamentoFugitiva; Felicidade Demais e O amor de uma boa mulher, este último editado agora em 2013, embora tenha sido lançado originalmente em 1998. A Editora Globo, logo depois da divulgação de quem havia levado o prêmio, declarou que vai trazer para o Brasil os livros “Runaway” e “The View of Castle Rock”. Assim como A Companhia das Letras publicará em dezembro o último livro da autora, “Dear Life”.

Como um traço comum, está a honestidade e franqueza nos diálogos, que encantou diversos leitores do mundo todo. Após ter anunciado que não voltaria mais a publicar, a autora admitiu que continuam a surgir-lhe ideias para novos contos. Que tal ler um dos contos de Munro e um comentário sobre “Amor de uma Boa Mulher”? Aproveitem a leitura.

Sobre o conto

O amor de uma boa mulher inicia contando sobre os objetos curiosos que estão preservados no museu de Walley, incluindo uma maleta de optometria que pertenceu ao  Sr. D. M. Willens, que se afogou no rio Peregrine em 1951. Nessa manhã, três garotos foram tomar um banho de rio no começo da primavera que ainda mal havia derretido toda a neve. E foi assim, tremendo de frio, que os três garotos encontram um brilho inusitado dentro do rio, que costumeiramente trazia coisas curiosas depois do degelo, “até uma ossada de vaca” relembram os garotos. Dessa vez, foi um carro inteiro. O que te surpreendente é que, após descobrirem que o corpo do Sr. Willens ainda permanecia dentro do carro, os garotos voltam para a cidade para o almoço de sábado, cada um para sua casa, e somente depois comunicam o ocorrido.

Cidades pequenas e isoladas como onde Muron nasceu e foi criada fazem parte do seu o mundo de ficção. Comunidades onde a ambição não é bem vista, especialmente nas mulheres. Mulheres de todas as idades protagonizam as suas histórias e mulheres que Muron descreve intimamente nesses anos que precedem a Revolução Sexual.

Por sinal, minha falta de atenção com a época em que a história se passa me pregou uma peça, tomei um susto enquanto lia o trecho no qual os garotos rumavam para casa almoçar “Os que iam para casa eram quase todos homens. As mulheres já estavam lá – estavam lá o tempo todo” machismo? Não, apenas a forma em que Munro retrata essa época de obscuridade dos desejos femininos. Os contos de Alice Munro condensam vidas inteiras nas suas poucas páginas. Utilizando uma prosa direta e simples, a autora constrói pequenos, porém intrincados, quebra-cabeças narrativos, com seu olhar ao mesmo tempo panorâmico e íntimo.

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