O teatro é na rua e o palco é na Roosevelt – Galpão se apresenta em SP

Por Nana Medeiros

fofa

Reprodução

O retorno dos jovens às ruas, marcado pelos protestos que vêm ocorrendo desde junho, mostra que a apropriação dos espaços urbanos ainda é um instrumento expressivo de manifestação e de grande importância para os cidadãos.

Nesse momento, o teatro de rua é o que melhor representa a importância da arte nessa retomada do contato com a cidade por reunir pessoas com diferentes gostos e interesses, mas que – por uma ou duras horas – compartilham essa experiência lúdica, ocupando um ambiente rotineiro, que muitas vezes passa despercebido.

Fundado em Belo Horizonte, em 1982, o Grupo Galpão se destaca nesse aspecto por contribuir para o reconhecimento dessa expressão artística e reinventar o teatro de rua, a partir de encenações, cenários e músicas que emocionam a plateia. O grupo se apresentou em São Paulo em setembro, na Praça da Independência, e em outubro na Praça Roosevelt, onde encenaram “Os gigantes da montanha”, dirigido por Gabriel Villela.

Após 19 anos, o grupo voltou às ruas comemorando 30 anos de sua fundação com a peça baseada na obra do italiano Luigi Pirandello. O texto celebra a arte do teatro contando a história de uma trupe de atores que, decadente, não tem mais onde apresentar seu último espetáculo. A fábula, interpretada pelos atores de forma cômica, com cenários e figurinos ricos e muita música, é interpelada por elementos urbanos como o barulho dos carros, o espaço em que se encena o espetáculo e até mesmo a chuva. O tempo ruim não impediu que mais de 2.500 pessoas se reunissem na Praça Roosevelt para assistir o espetáculo.

O teatro de rua configura-se como uma vivência única aos atores e aos espectadores. Se no ambiente teatral cada espetáculo é distinto um do outro, o diálogo com a cidade torna as apresentações únicas e fascinantes. A importância do lúdico na vida das pessoas fica explícita, quando, ao fim da peça, pessoas que não se conhecem comentam o quanto o espetáculo as emocionou e como, sem dúvida, voltarão em próximas oportunidades.

Em entrevista exclusiva, Eduardo Moreira, ator e fundador do Grupo, falou sobre a manifestação artística como ocupação da cidade e um pouco da trajetória do Galpão:

Eduardo Moreira, um dos fundadores do grupo, na peça A Rua da Amargura

Eduardo Moreira, um dos fundadores do grupo, na peça A Rua da Amargura

Corta Essa: Qual a importância e colaboração do teatro de rua nesse momento em que as pessoas – principalmente os/as jovens – parecem estar retomando o contato com as ruas e se “apropriar mais” da cidade? 

 Acho que o teatro de rua estabelece a utopia do espaço público ser ocupado democráticamente como o lugar da festa e do lúdico. No momento em que vemos as ruas serem ocupadas com manifestações políticas que tem descambado para a violência e a destruição, acho muito importante, a possibilidade de reafirmar a ocupação das ruas pela arte, pela poesia e pelo sonho do teatro. Creio que  a reconquista da rua é um elemento fundamental para a democracia brasileira. É ela que vai dar um sentido de coletividade, de igualdade e de sensibilidade para um conceito de bem estar público. E, infelizmente, ainda estamos longe desse ideal. 
CE: O Grupo Galpão se destaca no cenário da arte de rua. As apresentações costumam reunir muitas pessoas de diferentes gostos e lugares. Como se deu essa conquista, uma vez que a arte de rua ainda é, infelizmente, ignorada por muitos? 
 
Acho que é uma conquista de mais de trinta anos de trabalho ininterrupto. O Galpão construiu uma história de qualidade que hoje é plenamente reconhecida pelo público. É claro que a ampla divulgação dos eventos, possibilitada pelo patrocínio que recebemos, também é um fator importante. E a história de trabalho do grupo que sempre desenvolveu uma relação muito profunda não só com a comunidade em que vive, mas também nas diversas cidades ( de grandes centros, periferias e cidades do interior) por onde o Galpão sempre excursiona.
CE: Ao sair do espetáculo foi possível ouvir  vários comentários sobre como a experiência foi única, lúdica e envolvente. Como é, para os atores do Galpão, essa vivência do teatro na rua, em que a platéia e os elementos urbanos também são envolvidos na cena?

É muito gratificante. O Galpão resignificou vários espaços em diferentes cidades brasileiras. O grupo fez a comunidade descobrir praças e logradouros públicos que antes eram simplesmente ignorados pela população. Só para citar alguns exemplos, é o caso da praça JK e do Papa, em Belo Horizonte, as escadarias do Museu do Ipiranga, em São Paulo e a praça dos Correios, no Rio. Nossa última incursão no Rio, certamente fez com que aquelas dez mil pessoas, que foram ver o espetáculo, passem a ver o Monumentos aos Pracinhas de uma forma diferente.

Para saber mais sobre o Grupo, quais os próximos espetáculos e indicações de outras peças, acesse o facebook do Grupo Galpão!

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