Especial MIC: Omar

Por Lucas Goldstein

Tentando sair de uma crise institucional que se arrasta desde o início do ano, a Cinemateca Brasileira é um dos locais que recebem até hoje, 31 de outubro, a programação da 37a Mostra Internacional de Cinema. Apesar da luta interna, os eventos externos à (praticamente congelada) programação da casa, como o festival de curtas metragens em agosto, parecem ter sido as principais demonstrações de resistência contra uma política estatal de violência velada à sétima arte arte, um patrimônio nacional.

Dentro de uma (extensa) lista de filmes estrangeiros em cartaz nesta edição da Mostra, estava o único árabe a ser exibido no último Festival de Cannes – o longa palestino OMAR, de Hany Abu-Assad, atraiu algumas dezenas de cinéfilos com uma história que até poderia ser comum, se não fosse impregnada pela guerra com os judeus. Com a ajuda de uma corda e de extrema força física, o jovem Omar (Adam Bakri) escala diariamente o muro da Cisjordânia para trabalhar e ver seus amigos de infância Amjad (Samer Bisharat) e Tarik (Eyad Hourani), e manter um romance secreto com Nadia (Leem Lubany), irmã de Tarik. O sonho dos três homens é lutar nas guerrilhas de libertação da Palestina, e o protagonista, o mais fraco dos três em relação à ideia, acaba preso, torturado e obrigado a colaborar com as forças de Israel.

Durante as idas e vindas de Omar entre a cadeia e seus amigos, seu diálogo com o oficial inimigo que o incriminou aumenta. Responsável pela vida dupla do palestino, o vilão conspira: enquanto cria uma relação de certa confiança com o preso, chantageia Amjad e Nadia, no que revela ser um triângulo amoroso com Omar. Ele, o oficial, é a personificação do espírito judeu sob a ótica palestina: não julga os palestinos um povo digno de conversa, exceto quanto um deles pode ser útil aos seus interesses (de manutenção da ocupação e do “tratamento” dado os refugiados). Não é necessârio dizer que essa conversa cai por terra conforme Omar passa tomar posição de si e de seu povo.

Em suma, o filme é eficiente por estar profundamente conectado com o cenário de guerra. A fotografia, a direção de arte e as atuações convencem, o que acaba por inserir o espectador na cena e lhe incitar reflexões a respeito das intenções e meios das partes relacionadas no conflito – uma exceção: os tipos físicos do casal de atores principais mais se encaixariam em um romance de Hollywood do que em um filme palestino. O plano final choca, e divide opiniões: afinal, o filme seria uma apologia à violência ou um retrato da vida no Oriente Médio?

Após 90 minutos de convívio “sadio” entre abusos de poder, resistência armada, trocas de tiros, assassinatos e histórias de amor, uma questão fica no ar: poderia uma história dessas ter funcionado se a situação em que se encontra – assim como o filme em si – propusessem uma solução pacífica?

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