A marginalização do cabelo crespo

Por Veronika Marcelino

“Cabelo crespo é ruim. Feio. Pixaim. De pobre”. Numa sociedade que tem como padrão de beleza a mulher branca, de cabelos lisos e olhos claros – estilo Barbie – as mulheres negras de cabelo afro não têm espaço. Ensinadas desde pequenas a seguirem e admirarem esse estereótipo – de apresentadoras de TV, artistas, cantoras e modelos – elas começam a passar química no cabelo muito novas. Pensando nisso, entrevistamos Zaíra Pires, do site Blogueiras Negras, que é negra e passou pela transição capilar, ou seja, deixou a química e assumiu os cabelos crespos.

 Corta Essa: Por que as mulheres negras não se identificam com os seus cabelos crespos? Isso é uma questão de não aceitação?

Zaíra Pires: A questão principal é que vivemos em um país racista. Tudo ao qual somos expostas no dia a dia nos afirma que a negritude não é bonita. A negritude é pobre, é feia, é desarrumada, não é atraente. Se alguém quer ser bem sucedido no campo profissional, social, amoroso, deve atenuar ao máximo suas características negras para ser aceito. Entre elas, e principalmente, o cabelo. Ter cabelos lisos é sinônimo de beleza e sucesso. Isso advém de um padrão eurocêntrico de beleza que nos repassam todos os dias na TV, no cinema, nas revistas, nos programas de humor. Ser bonita é ser branca, ter características físicas caucasianas. 

Simploriamente, é isso que acontece. Nos ensinam desde a infância a odiar nossos cabelos. Por isso muitas de nós se submetem a processos químicos arriscados para tentar fazer com que os cabelos se pareçam o menos possível com cabelos de negros. Mas, importantíssimo salientar, isso não vem da mulher negra. Não é a mulher negra que nasce se odiando, mas é uma construção feita para que não nos gostemos.

CE: Por que os cabelos crespos são vistos como ruins e feios pela maioria das pessoas? É pelo fato de serem cabelos de negros?

ZP: Justamente. Num país racista como o nosso, tudo o quanto é associado à negritude é feio, ruim, sujo. Nascer com cabelos crespos significa que você tem ascendência negra. E manter seus cabelos crespos, ou seja, não alisar, não fazer nenhum procedimento para atenuar esse crespo é uma afronta. Significa dizer que você não se importa com essa regra, é desprezar a ordem vigente. E isso é uma transgressão imperdoável. Por isso a perseguição tão grande. Já ensinam às meninas negras que elas são feias ou tem menos valor desde bem jovens, nos filmes infantis, nas brincadeiras. Ao dar às meninas apenas bonecas brancas, estamos colonizando sua fantasia. A personagem da sua imaginação nunca se parece com ela. O quão danoso isso pode ser?

CE: O que é preciso para que as mulheres negras se aceitem com os seus cabelos crespos?

ZP: É necessária uma desconstrução e uma posterior reconstrução. Ter cabelos crespos e naturais é uma escolha muito corajosa, muito dura e não é fácil. Aliás, não devemos julgar, culpar ou apontar os dedos para as mulheres que escolhem alisar os cabelos. Por diversos motivos é mais simples ter cabelos alisados: sucesso profissional, aceitação social. Não é, em hipótese alguma, motivo de vergonha ou sofrimento alisar os cabelos, assim como não fazê-lo também não. Isso é uma questão individual. Cada mulher sabe das suas necessidades, da sua trajetória, e decide o melhor sobre si, seu corpo, seus cabelos.

Mas, pensando em tudo isso que falamos acima, dessa definição de um padrão de forma tão ostensiva e massacrante, para que uma mulher negra abandone a ideia de que precisa se enquadrar em um padrão branco e mantenha seus cabelos naturalmente crespos, é preciso romper com essa cultura. É preciso acreditar que ser negra é, sim, bonito, entender que a negritude é válida, bonita e interessante. Coletivamente, devemos ser críticas a essa sociedade que nos impõe a branquitude europeia como belo e todo o resto como feio. Não sejamos coniventes. E é aí que a gente faz nosso barulho.

A transição capilar de Veronika, editora de Moda e Beleza do Corta Essa

A transição capilar de Veronika, editora de Moda e Beleza do Corta Essa

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