Da web para as prateleiras: entrevista com Biajoni

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Por Priscila Bellini

Homossexualidade, tráfico de drogas, prostituição, sexo, promiscuidade. A sequência de nomes pode chocar o leitor, logo de cara, mas se combina de maneira excelente nos livros de Luiz Biajoni, jornalista e escritor recusado por 16 editoras. Depois de ler seus textos, não dá pra negar: as editoras perderam uma oportunidade e tanto. Biajoni lança agora o livro “A Comédia Mundana”, que reúne suas três principais novelas.

Biajoni alcançou fama na web, com os livros Sexo anal – uma novela marrom, Buceta – uma novela cor-de-rosa, Boquete – uma novela vermelha e transformou em romance o roteiro de Elvis e Madona. Os nomes podem te fazer esconder a capa dos olhares de estranhos, mas o conteúdo prende o leitor até a última página. Ao ser questionado sobre os títulos dos livros, ele é categórico: “se você leu meu livro e tem um nome melhor do que esses para ele, eu mudo”.

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Cartaz do filme “Elvis & Madona”.

 Quando você começou a escrever?

Escrevo desde sempre, sempre quis “ser escritor”. Durante um tempo minha necessidade de escrever foi satisfeita pela internet, escrevendo em blogs, etc. Aí quando me separei pela segunda vez, em 2003, achei que podia tentar a literatura, não tinha nada a perder. Tinha 33 anos e, hoje, com 43, contabilizo cinco livros. Acho uma boa média.

Como você mantém o ofício de escritor e jornalista?

Tenho a sorte de trabalhar apenas no período da manhã, com poucos trabalhos no período da tarde, quando posso escrever. Mas se você quiser ser escritor certamente deve abrir mão de querer enriquecer ou pegar grandes trabalhos – é incompatível.

Em que sua experiência como jornalista influencia seus livros?

Ajuda na escrita e, em alguns dos meus livros, serve como base para os romances. Apesar disso, me considero criativo, não acho que escreveria um livro jornalístico. Gosto de imaginar, tecer tramas, criar personagens; essa Síndrome de Deus do escritor.

Qual é a sensação de compilar as suas novelas em um livro só, que vai para as prateleiras?

Foi ótimo, tive um editor muito bacana, um português, Hugo Gonçalves, da Língua Geral, que me ajudou a repensar as novelas já publicadas, Sexo Anal e Buceta, editou minha nova novela, Boquete, e a coisa toda adquiriu unidade. Acho que esse livro fecha um ciclo.

Já pensou em mudar seu estilo ou algum traço marcante dos seus livros por conta da negativa das editoras?

Não. Eu acho que a história pede um estilo, não creio que eu tenha um estilo único. Meu novo livro, que estou escrevendo, tem outro ritmo, é outro tipo de escrita. Vai ser um livro fino, de umas 100 páginas… Nunca pensei em mudar nada porque sabia que a história funcionava naquela linguagem.

Ainda rola um fetiche com o livro impresso?

Sim, ainda somos materialistas, táteis, e o livro é uma tecnologia inigualável, não depende de energia elétrica, baterias, quase nada – a não ser um pouco de luz. Já fui para a literatura em tablets e e-readers, mas nada é igual ao livro ainda. O livro vai acabar – isso é fato e é bom. O processo todo talvez demore um pouco.

Falando em fetiche, os nomes dos livros têm termos carregados de sexualidade. Isso ajuda no marketing?

Acho que já ajudou, já atrapalhou, já debateram muito isso. O que eu sempre digo é: se você leu meu livro e tem um nome melhor do que esses para ele, eu mudo! Mas, depois de lerem o livro, sempre concordam que os nomes são os melhores, eles se justificam.

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Qual a maior dificuldade do escritor que começa na internet?

O escritor, assim como qualquer profissional, enfrenta o desafio de se destacar, de apresentar novidades e ter um bom network, ter público, ser aceito pelos seus pares. Ele deve escrever e escrever e ler e se comunicar. A internet ajuda a fazer relações, a ser lido, a ser comentado… Se o cara é ruim, chato, arrogante, vai ser difícil ele se dar bem – em qualquer área.

E as facilidades?

As facilidades são muitas, antes era mais difícil: hoje você faz amizade com um jornalista de cultura, fala com alguém de um blog de literatura, encaminha seus livros mais facilmente. Antes era mais complicado. Peguei uma fase assim com Sexo Anal, mandei o livro na cara dura, sem ninguém para intermediar com as editoras ou indicar. Talvez seja um dos motivos pelo qual o livro foi negado por 16 editoras.

Quais escritores te influenciam mais? Você tem uma pegada meio Bukowski…

Essa coisa do Bukowski tem a ver com a temática de submundo, com a frase seca, com o ritmo rápido e o coloquialismo. Tem muitos escritores que reúnem essas características. Gosto e li tudo do Bukowski, mas, como influência, gosto de citar Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca.

A escrita jornalística acaba contaminando seu texto literário?

Um pouco sim, em especial no primeiro tratamento do texto. Por isso, temos que deixar o texto descansar um pouco depois, editar, cortar, enxugar… Escrever é reescrever e editar. Quem escreve com pressa de publicar geralmente publica merda.

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