“Queremos ajudar a discutir o que aconteceu em 1984″

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Contracultura baiana em “Depois da chuva”

Por Giovanna Patelli

“Depois da chuva”, um filme de Cláudio Marques e Marília Hughes, retrata jovens estudantes da classe média baiana dos anos 80, no cenário político embasado pela transição da ditadura militar para a democracia.

Abordando de forma crítica e atual, o filme mostra o questionamento de um grupo de jovens anarquistas em meio a mudança da forma de governo. Permeavam de modo criativo a cidade de Salvador, palco de transformações subversivas e clandestinas, retratadas por experimentalismos musicais e artísticos. Fanzines anarquistas (“O Inimigo do Rei”), rádios piratas e o punk rock mostram a cultura baiana sem se ater ao clichê generalizado, acentuando a diversidade em expansão no Brasil.

A vontade dos diretores era de relatar o final da ditadura no campo cinematográfico, uma época que não é tão discutida culturalmente como o golpe de 64. Cercada pelo ceticismo, mostra a disjunção de jovens que acreditavam em um futuro próspero e os que não viam sentido na nova forma de governo, exposta incialmente pelas eleições indiretas, retratada pelos anarquistas como “demencracia”, uma democracia doente. A morte de Tancredo Neves e a eleição do vice, José Sarney, ex- integrante do Arena, proporcionou um forte questionamento sobre o sentido da luta e seu futuro incerto.

Inconformado com a política nacional no período da campanha das “Diretas já”, Caio (Pedro Maia) se vê em um dilema acerca do momento político do país e de sua relação amorosa com Fernanda (Sophia Corral) fator que abala suas convicções anarquistas, adentrando no cenário político da escola pelo grêmio estudantil, a primeira desde o golpe, mas que ainda é influenciada pelas leis rígidas da ditadura. Causando um rechaço em seu grupo, seus laços enfraquecidos simbolizam o esgotamento político da sociedade brasileira em seu todo.

“Seria muito interessante se o filme ajudasse a discutir o momento atual, de inconformismo e insatisfação em relação à nossa democracia e ao nosso sistema político. Quando a gente joga uma luz no passado, imediatamente falamos de um processo que é formador do País hoje e de toda essa insatisfação que estamos vivenciando. Alguma coisa muito mal feita, deixada lá trás, que está reverberando fortemente nos dias de hoje. (…) Hoje, a juventude está mais cansada dessa representação partidária tradicional, então em um certo sentido a gente perdeu uma ingenuidade e a sensação de que os políticos, ou da esquerda ou da direita, poderiam resolver os nossos problemas.” Diz o diretor Cláudio Marques.

A produção baiana venceu três categorias (Melhor Trilha Sonora, Melhor roteiro e Melhor ator) no 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A estreia no circuito comercial está prevista para 2014, 30 anos após as Diretas Já e 50 anos após o golpe militar. Sua exibição em São Paulo ocorreu durante a 37ª Mostra Internacional de Cinema, sendo selecionado para abrir o 14º Festival da Juventude.

Assista ao trailer.

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