Dexter: o raio-x do sistema carcerário

Por Julia Barreto

dexter

Em entrevista para o blog CortaEssa, Marcos Fernandes de Omena, o rapper Dexter, que passou 13 anos cumprindo pena por um assalto, contou como o hip hop foi o pai que ele nunca teve e fez críticas duras ao sistema carcerário brasileiro. Reconheceu ser uma exceção nos casos de pessoas que saíram do sistema carcerário e conseguiram dar a volta por cima. “É muito difícil você sair do sistema carcerário porque você já sai estigmatizado, todo ‘trampo’ que você vai procurar, puxam seu DVC e as oportunidades não aparecem, no nosso país o preconceito em relação a quem passou pelo sistema é muito forte, você é um ladrão, você é um traficante, você é um assassino” afirmou o músico que também atribui o crescimento desse preconceito a programas sensacionalistas como o do Datena e do Marcelo Rezende. Para Dexter a situação dos egressos é bastante delicada: “são pessoas carentes de educação, cultura, informação, são carentes de oportunidade e quando saem do sistema se tornam ainda mais carentes porque as pessoas não apostam nessas pessoas, se a própria família às vezes abandona, imagina quem não conhece!”.

O sistema prisional brasileiro está entre os três países do mundo com o maior crescimento da população carcerária. De dezembro de 2011 até julho de 2012 estima-se que o aumento tenha sido de mais de 35.000 pessoas. Os presídios brasileiros apresentam a maior taxa de ocupação do mundo. O Brasil vive uma situação na qual aproximadamente 70% dos presos são reincidentes. Por que esses números só parecem aumentar?

A matemática é bastante simples: a pessoa comete o delito, é presa, cumpre a pena, volta às ruas sem assistência do governo, nada é feito contra o preconceito que as pessoas com ficha criminal “suja” enfrentam para conseguir um trabalho, sem condições de uma vida digna a pessoa opta por voltar ao crime. O ciclo se repete.

O rapper que ainda volta para dentro dos presídios para conversar com os detentos com o projeto que leva o nome de uma música sua “Como vai seu mundo” busca questionar os detentos acerca de qual rumo estão tomando em suas vidas, dando o exemplo de sua própria trajetória como referência. Afirma que a população carcerária é a população que sempre esteve à margem do sistema, mas que quando as oportunidades aparecem os resultados são visíveis (o próprio Dexter quando ainda estava preso teve a oportunidade de gravar o CD de seu grupo, o 509-E (número da cela do músico no Carandiru), a partir do projeto “Talentos Aprisionados”).

“Foram poucas as pessoas, são poucas as pessoas que conseguem esse feito, bem poucas. Até porque nem todo mundo é rapper e nem todo mundo tem aptidão pra ser empresário, nem tem condições pra isso e muito menos a oportunidade”.

Para Dexter a raiz do problema da população carcerária brasileira está no fato de que principalmente a parte mais pobre da sociedade tem pouco ou nenhum acesso à educação. O sistema falha antes e depois da prisão dessas pessoas. A miséria, a marginalização, a construção da televisão do “homem bem sucedido”, a imposição do “carro e da roupa da moda” atingem essa população carente de forma devastadora. “Não existe uma politica de ressocialização dessas pessoas, de reeducação… Na verdade eu sou até ‘meio assim’ com essas palavras: reinserção, reintegração. Tudo que é ‘re’ para mim é meio difícil para falar dessas pessoas que na verdade nunca estiveram integradas no sistema” provoca Dexter.

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